23/3/07
BAILES DA VIDA
Nos Bailes da Vida
Na semana que passou, fui com o Dècio para Tabatinga, a cidadezinha que sempre cito nas minhas histórias, que fica á 20 km de Ibitinga,onde moro atualmente.
Em Tabatinga, morei dos 5 aos 15 anos de idade.
Sentamo-nos na pracinha e as histórias vindo em correnteza na memória.
E o Décio, todo ouvidos.
E contei lhe de novo, e dessa vez, com riqueza de detalhes, a história do meu primeiro amor.
Eu tinha treze anos, ele 20.
Eu cursava o que se chamava de terceira serie ginasial. Ele o último ano de magistério.
Para ele, eu era apenas uma menina, criança, que ele tratava com carinho e amizade.
Nunca mais do que isso.
Eu o conheci, quando minha tia Vera, foi com três amigas, tinham uns 17 anos, passar um feriado em Tabatinga.
Com idade mais próxima da dele e dos amigos de sua turma, eles se aproximaram de mim, para falar com elas.
No final, ficamos todos amigos
Eles eram simpáticos, bonitos, engraçados. Boa gente
Minha tia e suas amigas foram embora e eu continuei amiga deles, apesar da diferença de idade.
E fui me encantando como Osvaldinho.
Ele era loiro, olhos verdes, baixinho. Bonitinho, inteligente. E muito, muito simpático
Amor totalmente platônico.
Eu escrevia nossas iniciais dentro de coraçõezinhos em cadernos, bolsas, árvores, carteira escolar.
Mudava de caminho para passar em frente sua casa, para forçar um encontro casual, me enfeitava, me arrumava para vê-lo. Escrevia poemas, pensava nele o tempo todo, ouvindo as músicas românticas de época.Viajava em sonhos ouvindo Roberto Carlos, Beatles, Simon and Garfunkel, Bee Gees. E teve a fase das músicas e filmes italianos;”Dio come ti amo, Se non havesse piu te” “Io che amo solo te” e eu entre sonhos e devaneios com esperanças de que um dia ele iria me ver com outros olhos.
Nós nunca ficávamos sozinhos. Se nos encontrássemos na praça, no cinema, na escola, e estivéssemos sozinhos, só nos cumprimentávamos. Não parávamos para conversar sobre nada.
Só quando eu estava com amigas, ou ele com seus amigos. Aí ficavamos até horas conversando. Em turma.
Às vezes sobre coisas sérias, as vezes sobre a vida, pessoas, cinema, música.
E podíamos ficar horas brincando, rindo, muito.
Essa paixão solitária durou uns dois anos. Em Tabatinga nunca namorei, nunca me interessei por ninguem, só por ele.
Na sua formatura, quando fiquei sabendo que ele se mudaria da cidade para cursar a faculdade em Bauru, chorei muito, muito.
E claro, numa cidade tão pequena, ele sempre soube do meu amor.
Mas sempre me tratou como “café com leite”.
Não desfazia de meus sentimentos, eu notava o respeito e carinho por eles. E me apaixonava ainda mais por isso.
Até o dia que ele começou a namorar com a Lídia, que já era uma moça.
Bonita, quase com sua idade.
Ela também, muito simpática, inteligente, assim como todo o colégio sabia da minha paixão,mas me tratava como ele: com respeito, mas sem levar á serio.
Eu não era nem sombra de uma possível rival.
E assim foi, por quase dois anos, essa paixão de longe. Sonhos, esperas, poesias, suspiros. Risos e lágrimas.
Um momento só nosso que ficou para ser lembrado foi no seu baile de formatura.
Cidades do interior, final dos anos 60, esse era o momento glorioso.
Fiquei toda bonitinha, mas já antevendo que teria que vê-lo dançar a valsa com a namorada.
Nem sei direito o que aconteceu, mas na ultima hora, ela não pode ir.
Minha melhor amiga, a Sirlei, também não pode ir, e eu fiquei com amigas não muito íntimas, nem minhas, nem dele
Durante o baile, como era de costume, fiquei o tempo todo olhando para êle, acompanhando seus movimentos.
Ele estava muito alegre, feliz, talvez até tivesse tomado uma dose á mais, sabe como é, Festa…
A cena foi assim:
Ele olhou para mim, sorrindo, apontou o dedo em minha direção, como se dissesse para si mesmo “achei”. Sorrindo para mim, atravessou o clube, e me tirou para dançar.
Sabe do tempo de bailes, “seleção de músicas lentas”?
Não me lembro de nenhuma das músicas, mas dançamos a seleção toda, com “rosto colado”.
Uma ousadia para época. Rosto colado, era compromisso. Coração batendo tão forte, que eu achava que ele estava ouvindo, que todos estavam ouvindo.
O Negrine, melhor amigo dele, e muito amigo meu, também formando, ao nos ver juntos, sorriu para mim.
Eu suava frio de alegria e felicidade.
Ele me deu um beijo no rosto. Isso não era comum na época. Beijos, no rosto ou na boca, eram para namorados. Esse beijo não entendi até hoje.
Mas me lembro da emoção que senti naquela hora. Foi a felicidade da realização de um sonho. O maior deles, até então. Na maioria das vezes, acertei escolhendo os homens que amei. O Osvaldinho era uma cara bacana que nesse baile me deu de presente um momento mágico para ficar na lembrança por toda uma vida.
Ele me deu uma história para contar, um instante para lembrar.
Tornou meu amor real, O primeiro amor, que poderia ter sido só um sonho.
Nesse baile, naquele momento se fez real.
Se fez magia.
Para contar. Para lembrar. Para sempre.
criado por picida_ribeiro
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