DIARIO DE UMA JOVEM DE 50 ANOS

DIARO DE UMA MULHER DE 50 ANOS DO INTERIOR, SUA FAMILA SUA SEUS AMIGOS, SUAS HISTÓRIAS DE VIDA

28/8/07

Naqueles Dias

Naqueles Dias

Não é a primeira vez que escrevo inspirada em temas que vi no blog vidamaria.blog.terra.com.br da Mari.
Nós estamos sempre em contato, estamos sempre trocando idéias, emoções e inspirações.
Ela escreveu um post sobre a primeira menstruação e a menopausa. Impossível não falar das minhas experiências nesse tema. Para uma mulher que hoje tem 51 anos, tudo era tão diferente… Não havia nenhuma informação sobre sexo. Não consigo me lembrar até quando acreditei na cegonha. Tudo era um mistéeeriooo.
Lembro me de como ficava intrigada quando via nas pagina das revistas um anuncio sobre absorvente. Céus!! O que era absorvente?
O anuncio de página inteira, desenvolvia-se como se fosse uma fotonovela, e era coberto de enigmas.
Começava com o galã convidando a heroína para uma festa, e ela com um olhar tristonho, recusava e comentava toda chorosa com uma amiga, que estava “NAQUELES DIAS”. Essa frase era repetida várias vezes. “NAQUELES DIAS”. Que dias seriam ???
Oras, a mocinha estava menstruada, e não podia sair de casa, se sentia insegura.
Então, a amiga sugeria que ela usasse o absorvente MODESS e fosse à festa.
Assim é feito. Ela vai toda alegre e saltitante á festa com o namorado e depois aparece feliz contando para amiga que se divertiu na festa e agradecendo a dica. Mas, assim, toda cheia de mistérios e duplos sentidos. Eu não entendia nada…
Na minha primeira menstruação, eu tinha 12 anos, morava em Tabatinga e estava de férias na casa dos meus avós em Ibitinga.
Eu nunca tinha ouvido falar no assunto.
Fui tomar banho, vi um pouco de sangue, me assustei.
O que estaria acontecendo??? Eu ia morrer???
Calada, fui lavar minha calcinha no tanque, coisa que eu nunca tinha feito. Minhas tias estranharam…
Na hora do jantar, eu continuava calada, vivendo momentos de angustia. O que estaria acontecendo comigo?
Não quis jantar. Minhas tias estranharam de novo, e quando me perguntaram o que eu tinha, comecei a chorar.
Aí começaram as perguntas:
”Você está com saudades de sua mãe?”
Eu negava com a cabeça.
“Brigou com alguma amiga?”
Negando e chorando. Não, não, não.
“Quer isso, quer aquilo?”
Só negando com a cabeça: não, não, não.
E assim, se passou algum tempo. Perguntas, choro e negação.
Então minha tia Cleide, me chamou até o quarto, só nos duas e me fez a pergunta crucial:
“Por acaso, saiu um pouco de sangue?”
Sim claro, como ela sabia?
Ela juntou as figuras do quebra cabeça: minhas lágrimas e a estranha atitude de lavar a calcinha. BingoOOOOOO.
Ela perguntou, se eu estava sentindo cólicas, depois de me explicar o que eram cólicas. Não sentia, mas respondi que sim, achei que ficaria mais importante.
Perguntou se eu queria me deitar, colocar os pés pra cima. Agora eu dizia que sim, para tudo.
Me deu absorventes. Finalmente!!!
À noite, os vizinhos puseram cadeiras na calçada como era costume, ficaram conversando e de vez em quando eu via uns cochichos: ela ficou”mocinha”.
Fiquei mocinha, nas férias de julho de 1968.
Mocinha, correndo e brincando pelas ruas.
Todo o resto fui aprender muuuuuito tempo depois. Outros tempos. Nem melhor, nem pior. Outros tempos…

criado por picida_ribeiro    19:02 — Arquivado em: Sem categoria

21/8/07

O Tempo de cada um

Fim de semana ensolarado, céu azul, temperatura amena. Desses que derruba qualquer tristeza, qualquer depressão.
Dias lindos de nos fazer crer que a vida vale a pena, cada dia, todo dia. E o que a vida nos dá, assim de graça, nem temos o direito de desperdiçar.
Sábado preguiçoso, sem fazer almoço, só um lanche, á noite um risoto de ervilhas frescas e assistimos SABRINA com Audrey Hepburn.
Impossível não lembrar quando vi esse filme pela primeira vez, no cine Brasília, de Tabatinga. Eu devia ter uns 13 anos, e o cinema fez uma temporada com uma promoção ás 5 feiras: Dois filmes pelo preço de um, e numa das quinta feira o primeiro filme foi SABRINA. O segundo não lembro mais, mas Sabrina eu nunca esqueci.
A história romântica, a elegancia da atriz, ficaram na memória para sempre. Há alguns anos atrás, foi feito um remake com o ator Harrison Ford, é bonitinho, mas nada igual. Também há o fato de te-lo visto com olhos de treze anos de idade, o que lhe deu um lugar de destaque na memória afetiva.
No domingo á noite, saímos para tomar sorvete com os sobrinhos Daniel e Gabriel.
E a semana segue, com o Decio tentando entender a cabeça do filho Rodrigo, que aos 30 anos, não sabe o que fazer da vida. Não sabe se fica no Brasil ou na Argentina, não sabe se trabalha com jornalismo ou descobre outra atividade. E nessa dúvida, paralisado, não faz nada. Só fica vendo o tempo passar… Céus, a vida não perdoa, o tempo também não. Isso será cobrado, com certeza. As vezes, acho que ele sabe o que vai fazer, ou pensa que sabe, mas não faz nada para ganhar tempo e na realidade, tempo é o que ele mais perde. E me angustio pela aflição do Decio ao ver o filho assim. Deve ser terrível para um pai, não conseguir perceber nenhuma área de interesse do filho, ver que um filho aos 30 anos, não construiu nada, sequer começou e depende de pai e mãe até para um cigarro.
O que houve com essa geração? Na minha, havia urgência em sair da casa dos pais, estudar, trabalhar e ter o máximo da independencia financeira garantida.
À mim por enquanto, cabe dar apoio e solidariedade ao Decio, e tentar ajuda-lo a descobrir o limite do tempo de espera. O ganhar ou perder TEMPO de cada um.

criado por picida_ribeiro    7:30 — Arquivado em: Sem categoria

18/8/07

Alem dos 40

Sempre leio coisas interessantes no blog alemdos30.blog.terra.com.br, e agora ele passou a ser alemdos40.blog.terra.com.br. Recomendo. Não é a primeira vez que seus post me instingam e me inspiram.
Nos seus posts mais recentes ela escreveu sobre fotonovelas. Revistas “Capricho”,”Grande Hotel”. Carro DKW, e os primeiros refrigeradores sempre com toque de humor.
Lembrei me que nem faz tanto tempo assim, e refrigerador era um grande sonho de consumo.
Quando eu era criança, em casa não havia geladeira, mas era muito natural ir diáriamente à casa da D. Lídia Cruz, com um baldinho, buscar gelo. Eu ia todo dia, na hora do almoço buscar um pouco de gelo, pra fazer suco para meu pai.
A geladeira era tão prestigiada, que quase nunca ficava na cozinha, era mais comum encontra-la na sala de jantar e até na sala de visitas! Acredite!!! Era muito chic!!! Ficava mais chic ainda, se no topo da dita cuja, tivesse um pingüim, quem sabe um par, melhor ainda, uma
família toda de pingüins. Ou um grandioso liquidificador, destacado em local tão nobre, devidamente coberto por uma capinha cheia de rendas e frufrus. Na “maçaneta” que abria á porta da geladeira, muitas vezes era colocado umas capas que as donas de casa achavam bonitinhas. Podiam ser de crochê com pingentes, ou de tecido, com caras de gatinho, morangos ou cenouras .
Eu devia ter 12 anos, ano de 1968, quando vi na TV do vizinho, os primeiros comerciais de gelatina ROYAL. Não eram comerciais, eram “propagandas” em preto e branco, lógico rsrs
Cantava uma musiquinha, a gelatina saía da forma, dançando, com boquinha sorrindo. Aquilo me fascinava. O que seria?? Como seria??
Então, duas descobertas: a primeira: chegou gelatina no armazém do Sr Nogui em Tabatinga, segunda: não era caro, dava para comprar. Comprei sem falar nada para minha mãe, e fui fazendo conforme as instruções:
.dissolver na água quente.OK
. misturar água temperatura normal,OK
. levar a geladeira. GELADEIRA???
Como assim? Era só aquele liquido?, parecia Q Suco… Precisava ir para geladeira?? Cadê a geladeira? Sem minha mãe saber, coloquei os potinhos, cobertos com pano de prato, numa pequena área de serviço. À noite fazia frio, quem sabe, se ela dormisse no sereno… Quase deu certo.
Ela não ficou firme como na TV, mas deixou de ser liquida, deu uma encorpada, deu para comer com colher rsrsr, toda feliz…
Ainda demorou mais uns dois anos para termos nossa primeira geladeira. Já era usada, mas tinha sido restaurada, estava bonitona. Era daquelas grandonas, de formas arredondadas, que abriam com uma alavanca. Eu achava lindo. Ficava na sala de jantar, que a gente chamava de “copa”.
Às vezes, quando todos na minha casa dormiam, eu me levantava, as luzes todas apagadas, eu abria a geladeira, a luz interna acendia e eu ficava olhando encantada, a casa iluminada só pela luz da geladeira. O máximo. Na minha casa tinha geladeira, nooossaa, eu estava podendo…
Foi uma sensação boa de conquista, numa época que o consumismo não era exacerbado e a gente podia se deleitar com o sonho da EXPECTATIVA de TER. Querer, esperar, era tão bom quanto a conquista em si. Ou até melhor!

criado por picida_ribeiro    15:07 — Arquivado em: Sem categoria

17/8/07

Seguindo a vida

Enquanto fico com um olhar de saudades em coisas boas que vivi, pessoas especiais que convivi, a vida segue, as coisas acontecem, e procuro manter o olhar atento para o que acontece hoje assim como ter um olhar esperançoso para o futuro. São esses os ciclos da vida não?
A Leninha, editora de uma revista local, chamada Multivisão, ficou sabendo que eu gostava de escrever, e veio me pedir um texto, foi quando tive a idéia de escrever sobre o Pedrinho, a figura especial que falei no post, que aliás, foi o texto que foi publicado. Não deixa de ser uma experiencia interessante ver um texto, transformado em “matéria”, uma sensação boa de realização, por menor que seja.
Passamos o “Dia dos Pais”, com um almoço na casa do meu irmão Neto. Só a família, e a família Biasi, amigos dele que é como se fosse família, e que perderam o pai há pouco tempo. Era o primeiro “Dia dos Pais” sem ele, e isso é sempre muito difícil, mas tudo transcorreu tranqüilo.
Tranqüilo, e o Decio, feliz. Depois de 20 anos, ele passava um “Dia dos pais” com seu filho Rodrigo.
Ganhou até presente. Dele, e dos sobrinhos Daniel e Gabriel.
E a família toda segue atenta ao desenrolar da história da minha irmã, com o marido, que depois de 8 meses voltou. Como acompanhamos á distancia, não sabemos se veio para ficar, se é só uma temporada, coisas de casal, cada par com sua história, mas é difícil para quem assiste, queremos sempre ver os irmãos bem e felizes, mas cada decisão é pessoal e intransferível. Não nasci sabendo disso, estou aprendendo agora, com a vida, com o tempo.
Serão dias de expectativa e suspense. Vamos aguardar.

criado por picida_ribeiro    9:44 — Arquivado em: Sem categoria

11/8/07

Dia dos Pais

Certa vez, li no blog madamemargo.blog.terra.com.br. sobre como podemos conduzir a vida como um barco sem destino, ou planeja-la.
Meu pai conduziu a vida como um barco sem destino. Também não consigo imaginar como outras pessoas agiriam estando nas mesmas condições. Talvez, eu veja sua vida com olhar benevolente de filha, talvez outros homens diante de situações difíceis tivessem tido maior maturidade e enfrentado as diversidades com mais firmeza, objetividade.
O que para muitos poderia parecer imaturidade, pra mim era sentimentos. Meu pai era só emoção, coração.
Imagine: Meados do século passado, 1954 para ser exata, numa pequena cidade do interior, um moço de apenas 17 anos ter um filho, com uma mulher sete anos mais velha.
Quando meu irmão Neto nasceu, meu pai tinha 17 anos. E ter 17 anos, nos anos 50, era muito diferente dos 17 anos de agora…
As primeiras lembranças que tenho do meu pai, são de momentos que só eu vivi como filha. Existe a história de um pai que só eu conheci. E é essa história que prefiro contar, prefiro lembrar. Eu devia ter cinco anos de idade, morávamos em Tabatinga, e me lembro bem da casa ampla e confortável que minha mãe mantinha impecavelmente limpa, arrumada. Rotina domestica tranqüila. Meu pai saía para trabalhar na oficina ao lado, minha mãe cuidava da casa. Não havia brigas e discussões. Meu pai chegava do trabalho, tomava banho, deitava na cama, me pedia massagens nas costas. Ele lia gibis do Mandrake, Fantasma, Superhomem, fazia álbuns de figurinha de jogadores de futebol, e ouvia rádio: futebol, sua paixão maior, e música. À noite, se eu sentia medo, pedia para dormir entre os dois. Aconchego. Às vezes, íamos todos ao cinema, depois passávamos numa lanchonete para comer sanduíches: filé, tomate e queijo branco. Algumas vezes, ele reunia uns amigos em casa, comes e bebes, conversas e risadas.
Só eu tenho essas histórias para lembrar. O Neto, não morava conosco, morava em Ibitinga com meus avós, a Liliana tinha apenas três anos, não se lembra, e o Zé Luiz, não tinha nascido.
Quando fomos morar na fazenda, me lembro da tranqüilidade, O Neto com meus avós, Liliana pequenininha e o Zé Luiz, bebê. Foi quando meu pai começou a ter contato com a bebida e meu olhar de filha, vê isso com desculpas carinhosas: claro, 24 anos, 4 filhos, morando numa fazenda, sem energia elétrica, sem amigos, trabalhando num alambique, que produzia aguardente? Não havia escolhas…
Aí começaram as conseqüências do alcoolismo, Brigas na família por nada, falta de dinheiro, sempre um clima tenso. A gente não sabia como ele ia chegar.
Minha mãe sempre dedicada ao lar e á ele. Quando ele brigava, meu olhar de filha, percebia que o sofrimento maior era dele, ele chorava, sofria, pedia desculpas, pedia perdão. Nos beijava e abraçava muito. Eu percebia seu sincero sofrimento, percebia seu arrependimento. Jurava nunca mais fazer isso. O alcoolismo não era visto como doença. Era uma fraqueza, irresponsabilidade. Eu já percebia que não era, percebia que ele queria de verdade parar e não conseguia.
Os filhos crescendo, o vicio também. O Neto veio morar conosco, e a Liliana e o Zé Luiz, já maiores, entendendo e assistindo as situações mais difíceis.
E crescemos assim. Com meu pai conduzindo a vida, como um barco sem destino. Mas num tempo em que pai não demonstrava carinho, meu pai nos beijava, nos falava de seu amor e sempre trabalhou muito e bem.
Quando me estabeleci em Sp, levei meus pais para morarem lá, e ele por iniciativa própria arrumou trabalho numa oficina, onde trabalhou por quase 10 anos. Ainda se debatia com o problema do alcoolismo. Trabalhava, e vivia isolado. Não tinha amigos, só convivia com a família, quando estava de bom humor, caso contrário, passaria o tempo todo de folga trancado em seu quarto, sem falar com ninguém.
Enfartou e pôs três pontes de safena com 42 anos de idade.
Começou nova vida quando me casei e fui morar com o Decio. A primeira vez que foi numa ceia de natal na minha casa, com família e amigos, quase não acreditei.
Meu pai, numa festa, com muita gente? Pois é, ele foi e gostou. Gostou da festa, da minha casa, do meu poodle Alf, da família do Decio, e foi descobrindo a vida, resgatando dignidade, auto-estima. Conheceu o mar, chorou de emoção no primeiro reveillon.
Então a Liliana e eu pudemos começar a desfrutar da figura paterna, de verdade. Ele passeava com a gente. Churrascaria, pizzaria, piscina. Coisas impensáveis há pouco tempo trás. Deixou de beber. Só bebia socialmente.
Fez amigos, se fez querido e respeitado. O Neto, já casado, com filhos, morando em Ibitinga, não pode desfrutar da vida cotidiana do meu pai, nessa fase boa, mas percebeu as mudanças, sabia que ele estava bem. O Zé Luiz, chegou a conviver um pouco com ele assim, mas depois se mudou para Londres, com visitas anuais.
Minha irmã Liliana, se casou, meu pai gostava muito de meu cunhado e eles se davam bem, eram amigos. Chegou o neto Daniel. Mas o consumo da bebida apresentou mais uma fatura: Com 55 anos ele teve insuficiência renal, teve que fazer hemodiálise, um tratamento terrível, desgastante para o paciente e para a família.
Mas fizemos desse período o melhor período de sua vida. Filhos e netos presentes, passeios e dignidade. O orgulho das conquistas do Neto e Zé Luiz.
Ele estava sempre perfumado e elegante. Era elegante nos gestos, nas atitudes. Educado e gentil. Sorriso bonito de dentes brancos metodicamente escovados.
Um bom homem. Morreu aos 60 anos numa segunda-feira seguinte de um feliz “dia dos pais.” Conto a história no post
Presto minha homenagem á ele.
“Pai, você foi meu herói, meu bandido, hoje é mais, muito mais que um amigo, nem você, nem ninguém está sozinho. você faz parte desse caminho, que hoje eu sigo em paz. Pai”

criado por picida_ribeiro    15:55 — Arquivado em: Sem categoria
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