11/8/07
Dia dos Pais
Certa vez, li no blog madamemargo.blog.terra.com.br. sobre como podemos conduzir a vida como um barco sem destino, ou planeja-la.
Meu pai conduziu a vida como um barco sem destino. Também não consigo imaginar como outras pessoas agiriam estando nas mesmas condições. Talvez, eu veja sua vida com olhar benevolente de filha, talvez outros homens diante de situações difíceis tivessem tido maior maturidade e enfrentado as diversidades com mais firmeza, objetividade.
O que para muitos poderia parecer imaturidade, pra mim era sentimentos. Meu pai era só emoção, coração.
Imagine: Meados do século passado, 1954 para ser exata, numa pequena cidade do interior, um moço de apenas 17 anos ter um filho, com uma mulher sete anos mais velha.
Quando meu irmão Neto nasceu, meu pai tinha 17 anos. E ter 17 anos, nos anos 50, era muito diferente dos 17 anos de agora…
As primeiras lembranças que tenho do meu pai, são de momentos que só eu vivi como filha. Existe a história de um pai que só eu conheci. E é essa história que prefiro contar, prefiro lembrar. Eu devia ter cinco anos de idade, morávamos em Tabatinga, e me lembro bem da casa ampla e confortável que minha mãe mantinha impecavelmente limpa, arrumada. Rotina domestica tranqüila. Meu pai saía para trabalhar na oficina ao lado, minha mãe cuidava da casa. Não havia brigas e discussões. Meu pai chegava do trabalho, tomava banho, deitava na cama, me pedia massagens nas costas. Ele lia gibis do Mandrake, Fantasma, Superhomem, fazia álbuns de figurinha de jogadores de futebol, e ouvia rádio: futebol, sua paixão maior, e música. À noite, se eu sentia medo, pedia para dormir entre os dois. Aconchego. Às vezes, íamos todos ao cinema, depois passávamos numa lanchonete para comer sanduíches: filé, tomate e queijo branco. Algumas vezes, ele reunia uns amigos em casa, comes e bebes, conversas e risadas.
Só eu tenho essas histórias para lembrar. O Neto, não morava conosco, morava em Ibitinga com meus avós, a Liliana tinha apenas três anos, não se lembra, e o Zé Luiz, não tinha nascido.
Quando fomos morar na fazenda, me lembro da tranqüilidade, O Neto com meus avós, Liliana pequenininha e o Zé Luiz, bebê. Foi quando meu pai começou a ter contato com a bebida e meu olhar de filha, vê isso com desculpas carinhosas: claro, 24 anos, 4 filhos, morando numa fazenda, sem energia elétrica, sem amigos, trabalhando num alambique, que produzia aguardente? Não havia escolhas…
Aí começaram as conseqüências do alcoolismo, Brigas na família por nada, falta de dinheiro, sempre um clima tenso. A gente não sabia como ele ia chegar.
Minha mãe sempre dedicada ao lar e á ele. Quando ele brigava, meu olhar de filha, percebia que o sofrimento maior era dele, ele chorava, sofria, pedia desculpas, pedia perdão. Nos beijava e abraçava muito. Eu percebia seu sincero sofrimento, percebia seu arrependimento. Jurava nunca mais fazer isso. O alcoolismo não era visto como doença. Era uma fraqueza, irresponsabilidade. Eu já percebia que não era, percebia que ele queria de verdade parar e não conseguia.
Os filhos crescendo, o vicio também. O Neto veio morar conosco, e a Liliana e o Zé Luiz, já maiores, entendendo e assistindo as situações mais difíceis.
E crescemos assim. Com meu pai conduzindo a vida, como um barco sem destino. Mas num tempo em que pai não demonstrava carinho, meu pai nos beijava, nos falava de seu amor e sempre trabalhou muito e bem.
Quando me estabeleci em Sp, levei meus pais para morarem lá, e ele por iniciativa própria arrumou trabalho numa oficina, onde trabalhou por quase 10 anos. Ainda se debatia com o problema do alcoolismo. Trabalhava, e vivia isolado. Não tinha amigos, só convivia com a família, quando estava de bom humor, caso contrário, passaria o tempo todo de folga trancado em seu quarto, sem falar com ninguém.
Enfartou e pôs três pontes de safena com 42 anos de idade.
Começou nova vida quando me casei e fui morar com o Decio. A primeira vez que foi numa ceia de natal na minha casa, com família e amigos, quase não acreditei.
Meu pai, numa festa, com muita gente? Pois é, ele foi e gostou. Gostou da festa, da minha casa, do meu poodle Alf, da família do Decio, e foi descobrindo a vida, resgatando dignidade, auto-estima. Conheceu o mar, chorou de emoção no primeiro reveillon.
Então a Liliana e eu pudemos começar a desfrutar da figura paterna, de verdade. Ele passeava com a gente. Churrascaria, pizzaria, piscina. Coisas impensáveis há pouco tempo trás. Deixou de beber. Só bebia socialmente.
Fez amigos, se fez querido e respeitado. O Neto, já casado, com filhos, morando em Ibitinga, não pode desfrutar da vida cotidiana do meu pai, nessa fase boa, mas percebeu as mudanças, sabia que ele estava bem. O Zé Luiz, chegou a conviver um pouco com ele assim, mas depois se mudou para Londres, com visitas anuais.
Minha irmã Liliana, se casou, meu pai gostava muito de meu cunhado e eles se davam bem, eram amigos. Chegou o neto Daniel. Mas o consumo da bebida apresentou mais uma fatura: Com 55 anos ele teve insuficiência renal, teve que fazer hemodiálise, um tratamento terrível, desgastante para o paciente e para a família.
Mas fizemos desse período o melhor período de sua vida. Filhos e netos presentes, passeios e dignidade. O orgulho das conquistas do Neto e Zé Luiz.
Ele estava sempre perfumado e elegante. Era elegante nos gestos, nas atitudes. Educado e gentil. Sorriso bonito de dentes brancos metodicamente escovados.
Um bom homem. Morreu aos 60 anos numa segunda-feira seguinte de um feliz “dia dos pais.” Conto a história no post
Presto minha homenagem á ele.
“Pai, você foi meu herói, meu bandido, hoje é mais, muito mais que um amigo, nem você, nem ninguém está sozinho. você faz parte desse caminho, que hoje eu sigo em paz. Pai”
criado por picida_ribeiro
15:55 — Arquivado em: 

Realmente temos uma historia muito parecida. Meu pai também está sofrendo agora o destruir de uma vida de bebidas. E também é nesse momento, quando parou de beber, que o conhecemos de verdade.
Eu costumo dizer que quando uma pessoa não aprende com os erros dos outros, a vida dá um jeito de ensinar. O problema é que quando a vida resolve ensinar, a batida é mais dura.
Um feliz dia dos filhos para vocês.
Comentário por Aguinaldo — 12 12UTC agosto 12UTC 2007 @ 20:41
Pícida, sou a esposa do Aguinaldo. Sempre leio e gosto muito dos seus comentários no blog dele.
Me emocionei com sua história, assim como com a dele, apesar de tê-la acompanhado por 16 anos.
Tenho a felicidade de ter um pai maravilhoso e que apesar dos seus vícios, sempre foi um pai muito presente na minha vida e na vida do meu irmão. Mas o mais importante de tudo é o fato de vocês fazerem um final feliz.
Comentário por Paula — 13 13UTC agosto 13UTC 2007 @ 22:07
Seu pai foi um grande lutador, que sai vencedor nesta vida. Os caminhos que conduzem ao essencial nem sempre são os convencionais, e leva um certo tempo para entender que nada poderia ter sido diferente do que foi…
Bjs!
Comentário por Selma — 14 14UTC agosto 14UTC 2007 @ 22:29