DIARIO DE UMA JOVEM DE 50 ANOS

DIARO DE UMA MULHER DE 50 ANOS DO INTERIOR, SUA FAMILA SUA SEUS AMIGOS, SUAS HISTÓRIAS DE VIDA

4/11/07

DIA DE FINADOS

Quando eu era criança e morava em Tabatinga, fui aprendendo que Finados era um dia triste, cheio de reservas, especialmente para os que haviam perdido entes queridos.
Embora a medicina não tivesse ainda cura para doenças que hoje são tratáveis, câncer era inegociável, pontes de safena, transplantes, era ficção científica, não havia mortes por violência, não havia mortes no trânsito, aliás, não havia violência, nem trânsito.
Em tempos em que não se ouvia falar sobre aquecimento global, todos os anos, nesse dia, fazia muito sol, muito calor e chovia no final da tarde. Sempre, todos os anos.
Ir ao cemitério era um passeio. Introspectivo, mas, passeio.
Eu não tinha nenhum parente enterrado por lá, nem tinha sofrido ainda nenhuma grande perda na vida, eu ia com as amigas passear, encontrar velhos conhecidos, ver os túmulos, quase sempre reformados para essa data.
E a gente ia andando por entre os túmulos, vendo as fotos, vendo quem tinha os arranjos de flores mais caprichados. Poucas flores naturais, rosas, dálias, palmas de Santa Rita, plantadas nos quintais, a maioria dos arranjos era feito de flores de papel crepon.
Nós íamos contando as histórias da vida, e circunstâncias da morte de cada um.
O túmulo de ciganos, cheios de enfeites, com uma porção de pedrinhas que diziam se você fizesse um pedido, virasse uma pedrinha e rezasse uma Ave Maria, o pedido se realizaria.
Eu sempre fazia o pedido, mas nunca soube se algum se realizou, ao sair dali já nem lembrava mais que pedido tinha feito.
Visita ao túmulo do pai da minha amiga que havia se enforcado: a gente dava um tempo levantando hipóteses, porque ele teria feito isso? Parecia tudo tão bem…
Aqueles outros túmulos das irmãs gêmeas que foram passear caíram no rio, morreram afogadas…
O s túmulos bonitos de mármore, com anjinhos de bronze: chiquérrimos!
E assim íamos entre as doces melancias vendidas aos pedaços, reverenciando os mortos.
Em 1970, quando já estava morando em Ibitinga, também uma cidade do interior, mas “infinitamente” maior que Tabatinga, tudo ficou maior.
O ritual de ir ao cemitério continou, só que dessa vez era maior, mais histórias, mais túmulos bonitos, mais barracas de melancias espalhadas pelo percurso.
Carros ainda não podiam ainda ser considerado meio de transporte, era um sobe e desce de pessoas fazendo o caminho á pé, parando nas barraquinhas para comprar velas, fósforos, flores.
À partir de 1975, quando fui morar em SP, Finados passou á ser feriado, para passeio, descanso, viagens.
Em 2000 voltei á morar em Ibitinga, e meu ritual passou á ser ir com minha mãe e irmã, levar flores ao túmulo de meu pai.
Uma sensação estranha, uma dor sempre constante, ver seu nome completo, e ao lado o apelido “LuLa’
A constatação dura, difícil, de ver ali, escancarado: ACABOU.
E nesse finados, levei flores para Tia Vera.
Ainda sem acreditar. Não era hora, nem lugar.
Um finados sem sol, só calor, sem melancias, sem as conversas leves que só a infância nos permite.
E Deus do Céu, o que é aquilo, o show do Padre Marcelo?
Que festa era aquela? Artistas divulgando seus CDs, milhões de pessoas só na diversão, esse papo de” saudades sim, tristeza não”.
Saudades e tristeza, porque não?

criado por picida_ribeiro    22:10 — Arquivado em: Sem categoria
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