DIARIO DE UMA JOVEM DE 50 ANOS

DIARO DE UMA MULHER DE 50 ANOS DO INTERIOR, SUA FAMILA SUA SEUS AMIGOS, SUAS HISTÓRIAS DE VIDA

17/1/08

Noite Perpétua 1

PARTE I

Dia 06/01 tio Rosalvinho foi enterrado, aos 66 anos de idade, vítima de câncer de pulmão.
Seu corpo não resistiu á um tratamento tão agressivo. Sua saúde estava fragilizada, por conta de anos de cigarros e bebidas.
Talvez seus filhos não compreendam direito, porque eu e meus irmãos choramos tanto sua morte, se nossa convivência, nem era assim tão estreita.
Eles não tiveram a oportunidade de acompanhar o que esse tio foi para todos nós.
Como uso esse blog, para deixar algum registro da minha história, vou falar do Tio Rosalvinho, um capítulo importante nela.
Lembro me dele concluindo o “clássico” , sendo o melhor goleiro de todos os tempos de Ibitinga, prestando um concorridíssimo concurso para trabalhar no Banerj.
Cresci esperando feriados ou fins de semana que ele pudesse passar em Ibitinga.
Vinha cheio de presentes e abraços. Gostava de futebol, torcia para o SP, ouvia muito rádio, demorava-se bastante no banho, avisava toda família que estava indo ao banheiro, porque ia demorar e não queria ser
incomodado. Levava jornais e revistas, rádio, barbeador elétrico. Ia perguntando á cada um:”vai usar o banheiro? Use agora, porque vou indo para o banho”. Era carinhoso, numa época em que os homens não
demonstravam as emoções, não pegava bem.
Com ele, não era assim. Ele dizia sempre que podia o quanto nos amava. Eu ouvia risonha e encantada. Só meu tio fazia isso.
Era o orgulho da família. Nos anos 60 trouxe TV, rádio vitrola (quem lembra?) e os discos.
Para cada irmã uma tipo música: Tia Cleide ,Altemar Dutra, Moacir Franco, Agnaldo Timóteo, Ray Connif, para Tia Lúcia Beatles, Elis Regina e Jair Rodrigues, para Tia Vera, Roberto Carlos, Golden Boys e As 14 mais.
Levava os sobrinhos na sorveteria e dizia “escolhe”.
Os olhos estalados olhando para vitrines de doces e opções de sorvetes.Eu aproveitava a oportunidade e pedia umas moedas de chocolates da Lacta, embrulhadas uma á uma em papel dourado e colocadas num tubo azul.
Um sonho de consumo, que se realizava quando ele chegava. Sorriso fácil de dentes brancos, bonitos
Reunia seus amigos e fazia serenata. Tocava um pouco de violão, gostava de cantar uns boleros com sua voz grave, bonita, mas de dicção terrível!
Sua mais “famosa” interpretação, era seu “clássico”: O Relógio
Quem beira os cinqüenta anos deve se lembrar: Trini Lopes.
“Porque não páras relógio, faça essa noite perpétua …”
Os amigos de infância ele manteve por toda vida. O Issao, o Marchado, viraram compadres, batizaram os filhos uns dos outros.
Eu, criança, ficava brigando com o sono, esperando ele voltar para despedir-me dele antes que voltasse para SP, geralmente de madrugada.
Certa vez, fui dormir, mas antes escrevi um bilhete dizendo como era bom quando ele estava conosco, como gostava dele e queria que ele voltasse logo, e deixei na sua mala.
Minhas tias me contaram que ele se emocionou com minha carta, durante anos ele carregou essa cartinha na carteira.
Por sua causa, tenho até hoje a mania do “xixi psicológico”.
Quando criança, toda vez que eu ia sair, ele perguntava: “tomou água? Fez xixi?” E passou a ser assim: cada vez que saio de casa, dou uma conferida. Há um ano atrás, fui visita-lo e ele fez essa inevitável pergunta, e uma prima que o visitou no hospital, disse que ele fez a mesma pergunta para ela.
Porque a sua preocupação com o próximo era uma coisa impressionante.
Não estou falando de grandes boas ações, falo do respeito e solidariedade ao próximo, que estivesse próximo mesmo.
Embora tivesse personalidade marcante, ele mantinha seus pontos de vistas, suas manias, com educação e gentileza. Minha família é toda de pessoas simples, sem grandes erudições, de onde surge um homem
assim? Ele sempre foi assim! Honesto, íntegro. Acho que ele nem sabia como era ser diferente disso. Ele era assim, só assim. Lembro me da festa de seu casamento.
A Tia Ilma era uma das moças mais bonitas de Ibitinga. Era linda mesmo, e foi bonita pela vida toda.
Depois de casado, a lembrança mais forte que tenho, é ele chegando de viagem de madrugada na casa de
meus avós, feliz, contando que a Tia Ilma estava grávida.
Com dois filhos, transferiu se para Ribeirão Preto, só nos encontrávamos em esporádicos natais. Ele sempre fumou muito, e bebia.
Com as informações de hoje, vejo que ele era um caso de dependência, de tratamento.
Ele era um homem esclarecido, com recursos, mas nunca aceitou que fosse um alcoólatra. Mas era. Com certeza.

CONTINUA………………

criado por picida_ribeiro    20:15 — Arquivado em: Sem categoria

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