6/2/09
Era uma vez…
Só hoje, me senti preparada para contar essa história.
A história de minha Tia Inês, irmã caçula de minha mãe.
Nas lembranças de minha infância, não tenho dela nenhum registro, ela morava num sítio em Ibitinga, eu, na cidade vizinha de Tabatinga, as visitas eram raras e o convívio pouco.
Tinha uma foto dela, em preto e branco, de noiva, uma bonita grinalda, se casando com um homem que eu nunca vira na vida, em São Paulo.
E a história dela foi assim: Ela morava num sitio, onde seu pai, e irmãos trabalhavam na lavoura, e nem eram os donos da terra.
Uma vida muito, simples, muito pobre. Sem estudos, fato comum na época, ela desde muito jovem, ajudava na lavoura, no serviço da casa.
Conheceu um japonês, agricultor das terras vizinhas, proprietário, ficaram noivos, e pelo que sei nos momentos mais românticos que viveram, ele mostrava para ela a terra onde plantariam tomates. Muito tomates. Assim eram os sonhos do noivo, não os dela.. E não era assim que ela via e queria seu futuro, mas ia levando.
Quando minha Tia Adalgiza, sua irmã, quase 20 anos mais velha, casada, morando em SP foi ter seu único filho, chamou a Tia Inês para fazer companhia, ajudar no resguardo, essas coisa, também comuns na época.
E ela foi, direto da roça, para o Bairro do Limão em SP.
Bonitinha, sua maior característica, era o bom humor, o rosto sempre alegre e sorridente.
E imagino que com essa graça caipira, conquistou o dono da padaria onde diariamente ia buscar o pão para Tia Adalgiza.
Era amor pra valer. Sentimento sério. Ela desmanchou o noivado por carta, e por correio devolveu a aliança. Nunca mais voltou.
Casou apaixonada, por um descendente de portugueses, desses típicos dono de padarias em SP.
Só vim a conhece-lo e comecei frequentar sua casa em 1975 quando fui morar em SP.
Ele era um homem rico, construíram uma casa bonita, enorme, era dono de padarias, de muitas casas de aluguel, foi uma mudança muito grande em sua vida.
Teve um casal de filhos e construiu sua família.
À principio eu achava seu marido, Tio Toninho, muito calado, sisudo, depois, ele foi se soltando, conversando, fazendo piadas, simpático.
Mas o relacionamento dos dois, era uma coisa impressionante. De se tratarem por “benzinho” a vida toda, e dela com seus 65 anos ainda dizer , e sempre dizer “ eu amo ele”.
Eles viviam uma vida simples. Na casa confortável e bonita, ela construiu uma casa á parte onde tinha praticamente um mini mercado. Gostava quando suas irmãs iam visita-la de encher sacolas com presentinhos, gentilezas.
Para saber de um irmão, bastava perguntar para ela. Ela era o centro da família. Que ajudava, comemorava.
As festas de aniversários eram na sua casa, almoço de natal com seus irmãos eram sempre em sua casa.
Eu frequentava mais as tias paternas, mas a visitava sempre, bolo e café aos domingos, reuniões divertidas.
Ela optou por viver uma vida simples. Apesar de meu tio, deixar para seus “alfinetes “ a renda de todos os imóveis que ele tinha alugado, ele nunca comprou roupa em shopping, ia na Lapa, nunca foi em restaurantes finos e caros. No máximo, churrascaria rodízio na Marginal.
Deixava o marido escolher sofá, tapetes, sempre de boa qualidade, nem sempre de bom gosto, e Le curtindo tudo, muito feliz.
Tinha sempre os últimos e melhores lançamentos eletro domésticos. As TVs, os microrondas, DVD, essas coisas, mas porque o marido comprava. Ela nunca fez questão.
Nunca teve empregada. Sentia alegria e orgulho em cuidar sozinha da casa. Nem faxineira, nunca quis.
Não era por economia. Era opção, por prazer. Esse era seu prazer. Ter suas coisa, cuidar delas. Seu orgulho.
Outro orgulho, o filho Marco, formado em farmácia na USP. Pudera…
Cada filho, um neto, e ela feliz, num casamento de harmonia. Um sonho.
Deve ter tido suas desavenças, mas acredito que nada muito significativo. Para ela era muito normal e natural que o homem fosse o líder. Ela não queria provar nada, mudar nada.
Sentia prazer em preparar suas refeições, seu café,
Quando nos mudamos de volta para Ibitinga, ele era a irmã mais presente para minha mãe.
Falavam se toda semana. Horas. Sobre a família, receitas, novelas.
Dia 01/11 quando fui para SP com minha mãe, um dos objetivos era visita-la. Era seu aniversário.
Minha mãe passou final de semana em sua casa, e no domingo, fomos até lá comemos bolo, mas tanto eu como minha irmã, a achamos meio abatida, minha irmã, minha mãe, a acharam com cara de cansada. Estava mesmo. Tinha envelhecido, mas continua sorrindo.
Minha mãe vivia dizendo que não se conformava dela nunca ter viajado de avião, navio, sei lá.
Nem praia. O lugar que o casal costumava passear era ir á Aparecida do Norte. Simples assim.
Minha mãe, as vezes resmungava de suas roupas simples, dela ainda não ter empregada, faxineira, nada.
Pra que tanto dinheiro? Dizia minha mãe. Eu respondia: ele é feliz assim ,não é sovinice, é assim que ela quer.
Sem problemas de saúde, com aqueles tradicionais exames de rotina em dia, no primeiro domingo de dezembro, assistindo TV com o marido, era aniversário dele, tinha bolo, refrigerante e café, ela estava esperando as visitas, ele teve um enfarte fulminante.
Acabou.
Na segunda feira, fui para SP no seu velório. Ninguém entendendo nada. Como assim?
Muitos parentes, amigos, de todas as religiões, de todas as idades.
Muita tristeza mesmo.
O marido pelo que soube, pôs a casa á venda. Continua morando na casa, não quis faxineira, por que ela nunca quis ninguém cuidando de suas coisas, de sua casa, e acha que assim está respeitando sua vontade. A filha tem ido limpar de vez em quando.
Fechou a porta da sala onde estavam quando ela morreu e nunca mais entrou lá.
Ela tinha 65 anos. Podia ter sido bem mais tarde, bem depois.
Amou e foi amada. Viveu e morreu feliz.
Carinho, respeito e saudades.
criado por picida_ribeiro
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