10/6/09
PRIMEIRO AMIGO
Espalhado nos escritos de 3 anos de existência de meu blog, há registro de histórias e pessoas significativas da primeira fase de minha vida.
As primeiras lembranças da infância, até 1970, quando com quase 15 anos, me mudei de Tabatinga para Ibitinga.
Cidades vizinhas, 30 Km de distancia, mas estilos de vida muito diferentes.
No interior de SP, não sei sei se ainda é assim, mas existe uma diferença enorme entre o estilo de vida em uma cidade de com uns 10.000 habitantes (Tabatinga, na época), e Ibitinga, já cerca de 40.000.Entre as histórias, há uma que foi muito forte na minha vida. História de um amigo muito especial, sobre quem eu nunca tive coragem de falar aqui.
Não me sentia preparada para retratar com verdade meus sentimentos em relação á ele e sua história.
Não me sentia capaz de transcrever meus sentimentos em relação a sua importância para mim, ainda tão menina.
Mas, lendo um post no blog Lucy in the Sky, onde ela fala sobre um amigo especial, criei coragem para me atrever, para tentar.
No inicio da adolescência, a gente procura ídolos.
Aqueles do cinema, da TV, e os que conhecemos na vida real.
O primeiro ídolo da minha vida, meu primeiro ídolo real, naquele universo tão pequeno em que eu vivia nessa fase ( Tabatinga), era o Negrine. José Negrine.
Tudo que escreverei sobre ele, foi visto com meus olhos de menina encantada.
Primeiro, ele se tornou alvo de minha admiração, porque era bonito.
Já falei de sua beleza, no post Beleza Interior.
Era alto, quase 1,90, ombros largos e atléticos, barriga tanquinho, muito antes da fase das academias de ginásticas.
Era sua natureza, aliada aos esportes que sempre gostou de praticar.
E como era bom atleta.
Goleiro do time oficial da cidade, do colégio, jogava basquete, futebol de salão, corria nos campeonatos dos Jogos Estudantis.
Era bem humorado, sorria, com os olhos, que fechava á cada sorriso.
Richard Gere não perde, mas empata.
Apesar de ser 7 anos mais velho que eu, ficamos amigos.
Cada vez que ele ia jogar, eu pedia para segurar sua mochila, cuidar de seu relógio, segurar seus cadernos.
Ele sempre participava dos grêmios estudantis.
Ele carregava votos. Dos rapazes, porque era amigo, simpático, gente boa.
Das meninas, porque era tudo isso e … bonito.
Eu gostava da maneira que ele me tratava. A gente conversava muito, as vezes sobre amores, planos e muitas vezes piadas e muito risos. Ele era bom nisso.
Eu ria muito com ele.
Ele me tratava com respeito de gente grande. Eu gostava disso.
Ele tratava as pessoas com respeito.
Era um cara simples, hoje vejo que sua postura ética com as pessoas, com o mundo, ele não aprendeu. Nasceu sabendo.
Uma prova definitiva? Eu sempre fui adolescente desinibida, alegre, festiva, mas careta. Não fumava, acreditava que virgindade era para sempre, ou quase isso, beijar na boca era pecado, e dançar de rosto colado, proibido!.
Resultado: Não tinha namorado. Eu via todas minhas amigas namorando, menos eu, sem contar que não tinha nem um pretendente.
O que omaginei? Não namoro porque sou careta, vou ficar mais liberal, como minhas companheiras.
Não fui muito alem, mas comecei a sair com as meninas mais descoladas, que fumavam, dançavam agarradinhas, davam uns beijos. Estava me enturmando.
E nos bailes, quando vinham garotos das cidades vizinhas, comecei a dançar juntinho, estava liberando…
O Negrine, que estava fazendo Faculdade de Matemática em Bauru, e vinha todos os fins de semana para Tabatinga, começou observar minhas atitudes.
Não me disse nada. Escreveu uma carta, onde dizia para eu viver meu tempo, ser eu mesma, escolher as melhores amizades, que eu era diferente, para eu não apressar as coisas e continuar a ser aquilo que eu acreditava.
Uma carta linda. Três paginas, com sua letra grande, firme, forte, de professor. Li a carta para minha mãe, mesmo me arriscando a levar bronca por estar então, tentando “maus caminhos”.
Ela ficou encantada com ele.
Naquele tempo, na minha cidade não havia carteiros. Você passava no correio e perguntava: Tem carta para mim? Não precisava dar o nome.
A emoção indescritível de receber uma carta surpresa. Quase nunca ninguém escrevia para mim. Eu era uma menina de 13 anos. Ele um universitário de 20 então.
Que se preocupou como um irmão com meu futuro. Não me esqueci disso nunca.
A carta veio para mim: Maria Aparecida Ribeiro (Picida.)
Dos 12 aos 15 anos fomos amigos íntimos.
Com 15 anos mudei me para Ibitinga, mas férias e feriados, eu viajava para Tabatinga para rever os amigos especialmente o Negrine. Mantivemos o contato próximo até meus 18 anos quando fui morar em SP.
Então os encontros passaram a ser esporádicos.
Em 1976, no feriado de Finados 01/11 morando em SP, vim passar feriado em Ibitinga e fui passear em Tabatinga.
Eu, na porta do clube com amigos, ele na praça em frente com sua namorada Eunice.
Calça jeans, camisa branca. Chamei seu nome, ele acenou.
Foi a ultima vez que o vi.
Eu estava com 20 anos. Ele exatos 27.
15 de novembro haveria eleição para prefeito, ele já tão novo, era candidato a vice .Se não me engano, ele foi bem votado, mas não se elegeu.
Duas semanas depois, num sábado a tarde eu vinha de ônibus para Ibitinga passar mais um final de semana. Na parada que o ônibus faz na rodoviária de Araraquara, entrou um antigo colega de classe João Marquesi e me disse que soubera que um Negrine havia morrido.
Pensei em irmãos, primos dele. Jamais nele. Para mim, ele era infalível, e imortal.
Quando o ônibus fez parada em mais uma cidade, Nova Europa, a confirmação: Era o Zé Negrine, e com tiro. Como tiro? Em Tabatinga tinha revolver? Nem guardas eu via armado por lá.
Na parada de Tabatinga, exatamente ás 17 hs, saia o enterro, uma multidão na rua, as pessoas transtornadas.
Eu quis descer do ônibus por lá mesmo, o motorista e mais um amigo de Ibitinga não deixaram
Segui mais meia hora de viagem. Minha mãe e minha irmã me esperavam na rodoviária, queriam ser as primeiras a me contar. Já imaginavam o choque e a perda que seria para mim.
Foi a primeira vez na minha vida que alguém que eu amava, morria.
E elas me contaram a historia incrivel e trágica. Quase inacreditável.
Na sexta feita a noite, ele deu aulas no Colégio da cidade de Itápolis, e ao contrario do que era habito fazer, avisou na casa do amigo onde costumava se hospedar que após a aula, iria embora para Tabatinga, embora não gostasse de dirigir a noite naquela estrada de terra.
Avisou aos pais do amigos que não esperassem por ele.
Mas os alunos após as aulas da sexta feira, convidaram para um choppinho. Ele foi, conversaram ate tarde, ele se sentiu cansado, mudou de idéia: iria para Tabatinga no sábado pela manhã;
Quando foi para casa do amigo, todos estavam dormindo, ele não quis acordar. Ele já tinha sua cama, seu quarto reservado e sabia o segredo de abrir a porta:
Era só forçar, o trinco baixava, a porta abria.
Quando forçava a porta, o amigo, dono da casa, descia as escadas, perguntou quem era, ele não deve ter ouvido, não respondeu, o amigo que era cadete, deu um tiro para assustar o possível ladrão.
Acertou o amigo. Antes mesmo que ele abrisse a porta, seus pais, desceram correndo para avisar: “Ouvimos o Negrine colocar o carro na garagem.”
Era tarde. Um tiro só. Ele só teve tempo de dizer: “Deus tenha pena de mim”.
Acho que ele falou isso num pedido de socorro.
Depois eu soube, que no enterro, já quase 19 hs, começando a escurecer, o padre teve que pedir a população que deixassem que ele fosse enterrado, que estava escurecendo. AS pessoas se recusavam a aceitar o fato.
Fui á missa de sétimo dia.
A igreja lotada de uma maneira nunca vista.
Os amigos chorando, murros na parede, uma dor escancarada.
Naquele natal e muitos depois a cidade não se enfeitou, não acendeu luzes nem os piscas,
Durante muito tempo, sozinha no meu apto em SP, eu ouvia as musicas do cantor italiano Gianni Morandi, que tocava no cinema de Tabatinga e me lembrava dele, e chorava muito, muito. Tanto que uma vez uma vizinha perguntou quem chorava tanto a noite?
Confessei e assumi.
A dor foi passando, a foi ficando sua falta, saudades e lembranças boas.
Apesar de lamentar sua perda, agradeço a sorte de te- lo conhecido, por ele ter feito parte da minha vida.
E desde então, fiquei pensando intrigada: Pessoas especiais morrem mesmo mais cedo e desse jeito trágico?
Nunca o esqueço.
Voltando á morar no interior, fui passear com o Décio em Tabatinga, e no topo no Ginásio de Esporte seu nome: GINÁSIO DE ESPORTES JOSÉ NEGRINE.
Merecido. Tudo a ver com ele.
E Na TV TEM, Globo regional, quando há campeonatos de futebol de salão são disputados nesse ginásio, ouço seu nome mil vez na TV, lembro dele, de sua historia.
Lembro de tudo que ele foi, penso em tudo que ele poderia ter sido.
Uma saudade doce, melhor das lembranças.
E assim, como o blog lucy in the sky, encerro com Canção da América:
AMIGO É COISA PRA SE GUARDAR, DO LADO ESQUERDO DO PEITO, MESMO QUE O TEMPO E A DISTANCIA DIGAM NÃO.
“Das lembranças que trago na vida, ele é a saudade que gosto de ter”.
criado por picida_ribeiro
21:35 — Arquivado em: 

Amigos são tesouros que para sempre brilham no coração e nas almas sensíveis. Lindo, emocionado e verdadeiro o seu post, a sua homenagem.
Você é sempre muito elegante nos seus escritos e admiro muito isso. Obrigada meu doce pela visita no meu cantinho.
Beijios
Lu
Comentário por Luciana — 10 10UTC junho 10UTC 2009 @ 22:19
Meus olhos se encheram de lágrimas… Nem sei o que dizer. Ainda bem que suas lembranças são vívidas, como se tudo o que ele fez por você tivesse sido ontem. Assim ele fica sempre bem pertinho…
Bjs!
Comentário por Selma — 10 10UTC junho 10UTC 2009 @ 23:31
Que tristeza! Que tragédia! Fiquei me perguntando como se sentiu o amigo que deu o tiro. Como ele seguiu a vida depois disso?
Amigos tão especiais ficam vivos na lembrança para sempre. Mesmo depois de passados tantos anos, você ainda se lembra dele com grande nitidez.
Mês que vem vai fazer um ano que o meu amigo me deixou. Eu penso nele todos os dias, às vezes me pego conversando mentalmente com ele, contando coisas que aconteceram, imaginando o que ele diria. Ou então, fico rindo sozinha lembrando das nossas piadas particulares e do jeito debochado e divertido com que ele classificava as pessoas.
Beijos.
Comentário por lucy in the sky — 11 11UTC junho 11UTC 2009 @ 11:50
Toc, toc, toc. Deixa eu bater na madeira aqui…
Comentário por TATIANA REZENDE — 11 11UTC junho 11UTC 2009 @ 21:58
Picida, fiquei emocionada ao ler sua história. Ele, realmente, continua vivo em nossa memória. Recentemente fui ao seu túmulo, em Tabatinga (quando vou ao de meu pai).
Tenho fleches daquele dia e da comoção na cidade.
Pela riqueza de detalhes, creio que sua memória seja privilegiada.
Beijos com carinho.
Lucia
Comentário por Lucia Salata — 19 19UTC agosto 19UTC 2009 @ 10:41