Não sei se é comum entre as pessoas de minha idade, mas eu tenho uma certa resistência á coisas novas.
Resisto, mas me adapto. Tento não me limitar.
Sou assim até nos relacionamentos.
Cultivo e sou atenta aos meus velhos e bons amigos,e aos relacionamentos que a vida foi preservando.
Sou arisca com pessoas que chegam agora, querendo ser, ou ficar “melhores amigos”.
Sou simpática, convivo, mas não confio.
Parece que a decepção virá á qualquer momento. Procuro não criar grandes expectativas. O pior, é que quase sempre acerto.
E eu sou um tanto preconceituosa com essa nova geração.
Embora eles tenham mais informação, tendo a achá-los mais vazios, descartáveis. Menos empreendedores no trabalho, no estudo.
Pré- conceito. Concordo. Mea Culpa. Mea Culpa
Acho-os menos respeitosos com as pessoas, menos educados, menos gentis, mais egoístas.
Estão sempre esperando que alguém faça algo por eles. Os pais, de preferência.
Posso estar equivocadísssima, e essas mudanças, serem reflexos de algo melhor que os tempos em que vivi minha adolescência e juventude, onde éramos muito reprimidos, sem direito a quere e a achar nada.
E com esse olhar crítico e desconfiado, há quase 2 anos atrás conheci o Rafael, hoje com 23 anos.
Ao contrário da maioria de pessoas com sua idade, ele dá atenção e conversa com os mais velhos, sem aquele olhar “blasé”, entediado, ou então com certo desdém, tipo” você não sabe de nada”.
Fiquei observando seu jeito de trabalhar.
Atento, rápido, eficiente. Discreto, inteligente, bonito.
Vi seu comportamento com os colegas de trabalho, clientes, sua sede de aprender, e depois por em prática. Conhecer, saber.
Ele é uma esponja, pronta a absorver o que de bom pode passar por sua vida.
Bom filho, bom namorado, é das pessoas que os mais velhos gostam de ensinar, de ajudar.
Além de receber a gratidão, você tem a chance de perceber que nada foi em vão.
Alguém está tirando proveito das experiências vividas. As certas e as erradas.
E nesse período, não ensinei apenas. Aprendi todo dia.
Aprendo com seu BOOM DIIIIAAAA sorridente, anunciando um bom traballho.
Se ele tem problemas, e todos têm, não leva para o trabalho.
Trabalha com afinco, dando sugestões, sempre acrescentando alguma coisa.
Ele costuma dizer que têm orgulho da empresa em que trabalha, que é feliz com seu salário, embora queira crescer e ganhar mais.

Eu incentivo. Trabalhamos na empresa de meu irmão, que é do setor financeiro, e atravessa seus momentos de dificuldades, agravados por grande índice de inadimplência. Propus para o Rafael, para incentivá-lo ainda mais, que á cada recebimento eu pagaria 5% de comissão.
Ele gentil mas firme, disse que não.Que era pago para fazer esse trabalho, e que receber comissão nesse momento, ele consideraria extorsão. Em outra circunstâncias, talvez. Fiquei calada
Ele disse que sempre foi o melhor aluno da classe, especialmente, matemática e física.
Sugeri curso universitário á distancia, na área de administração, FGV, ele passou mas a grana não deu, mas ano que vem, fará de novo e vou ajudar no que puder.
Ele ficou amigo do Decio. Gosta de trocar idéias com ele. Aprender sobre filmes, música, conhecer o jazz. Eu ensino a velha e boa MPB.
Nem tudo ele gosta, mas vai conhecendo e formando conceitos.
Quando contei á ele que o Decio ia embora, abaixou a cabeça, e vi lágrimas escorrendo de seus olhos.
Falou como Decio é um amigo importante e querido para ele. Mais que amigo, quase um pai.
Fez questão de ir até minha casa, num momento em que eu não estava e falar isso diretamente para o Decio, de forma sincera e emocionada.
Outra novidade para mim. Nessa geração, especialmente os homens, poucos demonstram os sentimentos e falam sobre eles de maneira tão transparentes
Mesmo sabendo de algumas coisas pessoais, nunca misturou situações, posições e posturas profissionais.
Sempre me tratou com respeito e consideração.
Durante a difícil fase de separação, ao final de mais um dia de trabalho, ele me disse para ir para casa e fazer alguma coisa diferente. “O que você não costuma fazer? O que você não faz NUNCA?”
Nunca coloco música para ouvir, só ouço musica no carro, ele disse então: põe um CD, uma musica que você goste, um som bem alto.
Nunca faço caminhadas, nem exercícios.
Então, sugeriu: caminhe, faça exercícios, e depois coma um bom prato de salada.
Cada vez que eu chegava em casa, e ia desabar na cama, lembrava do que ele me havia dito, e punha em prática. Deu certo. Fez esses meus dias melhores.
Tem lá seus senões… tem ainda o que aprender, sempre temos.
Sendo muito servil, ainda não consegue separar ocasiões ou situações de dizer NÃO. Ou então, quando vai negociar com cliente ou devedor, ainda não sabe a situação em que terá que impor um ponto de vista, ou fazer uma colocação mais profissional.
Certa vez, consultamos o Aguinaldo, do blog Crônicas Corporativas, sobre como ele poderia começar a ser visto com outros olhos, pela direção da empresa, pelos colegas, pelos clientes. O Aguinaldo orientou e ele seguiu. Já melhorou muito!
Outro problema? Não gosta de ler. Naaadaaa. Comecei á levar umas revistas para ele, e tento falar dos prazeres da leitura.
Dia desses, ele me falou que estava esperando a Priscila, sua namorada se arrumar, e sua sogra, A Dona Quitéria, fritou coxinhas para ele, e é muito atenciosa com ele. Disse “Sempre dei sorte com as sogras”. Eu respondi: “Já parou para pensar que foram elas que deram sorte com você?”
Eu costumo dizer lhe que ele é minha última aposta no ser humano. Se não der certo…desisto…

E espero para ele um futuro brilhante. Espero que ele colha os frutos das boas sementes que planta, pois seu terreno é fértil.
O universo em uma cidade de interior é limitado e ele pode ser muito maior que tudo isso. Basta acreditar em si, não esmorecer e não se adaptar as mesmices . Saber que mesmo por aqui, ele pode sempre ser maior. Porque é grande. Uma grande pessoa. Um grande homem.